A Disputa Pela Narrativa
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A democratização da comunicação ampliou as vozes da informação, mas também revelou a resistência de quem sempre dominou esse espaço
Kelly Souza
Ninguém fala sobre a quantidade de recursos públicos que as grandes empresas de comunicação sempre receberam dos governos ao longo dos anos. Muito antes da existência dos chamados “blogueiros” ou influenciadores digitais, eram justamente os grandes veículos que concentravam bilhões em verbas publicitárias oficiais, muitas vezes durante gestões das quais também faziam a cobertura jornalística.
O que causa estranheza é ver justamente algumas dessas páginas nos acusando por receber recursos públicos destinados à comunicação independente. Existe uma legislação que prevê esse incentivo e, no Distrito Federal, esse direito foi fortalecido com a regulamentação do artigo 149, § 9º, da Lei Orgânica do DF, por meio do Decreto nº 48.163/2026, assinado pelo governador Ibaneis Rocha, garantindo que, no mínimo, 10% da publicidade institucional do GDF seja destinada às mídias comunitárias, alternativas e digitais. Não se trata de um privilégio ou favor político, mas do cumprimento de uma norma criada para democratizar a comunicação e ampliar a diversidade de vozes.
É curioso perceber que muitos dos que hoje criticam essa realidade provavelmente fariam o mesmo se tivessem a oportunidade de participar de editais ou programas públicos destinados às mídias independentes. E, em alguns casos, sequer é possível afirmar que não recebam recursos por outras vias.
O trabalho das mídias independentes vai além de simplesmente reproduzir notícias. Nossa missão sempre foi informar a população, fiscalizar o poder público e dar visibilidade a temas que muitas vezes não encontram espaço na grande imprensa. Fazemos isso com o olhar de quem vive a realidade do cidadão comum. A notícia pode ser a mesma, mas a abordagem é diferente, mais próxima das pessoas e de suas necessidades.
Nossa opinião também faz parte desse trabalho, desde que esteja baseada em fatos e responsabilidade. Não defendemos notícias falsas nem a desinformação. Defendemos a transparência, reconhecendo quando um serviço público falha, mas também quando ele funciona e entrega resultados para a população.
Desmerecer o trabalho das mídias independentes apenas porque recebem recursos previstos em lei não fortalece a democracia. Pelo contrário, tenta criar a falsa ideia de que apenas a grande imprensa pode exercer o papel de informar. Quanto mais plural for a comunicação, mais ganha a sociedade.
No fim das contas, o debate nunca deveria ser sobre quem recebe recursos públicos dentro da legalidade, mas sobre quem presta um serviço sério à população. A transparência deve valer para todos, grandes ou pequenos veículos. O que não pode acontecer é transformar em escândalo o cumprimento de uma lei apenas porque ela abriu espaço para que a comunicação independente também tivesse reconhecimento e condições de exercer seu papel com dignidade.



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