Inclusão escolar no DF enfrenta desafios reais
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Mães relatam dificuldades, avanços pontuais e cobram estrutura no início do ano letivo
O início do ano letivo deveria representar recomeço, organização e esperança. Para muitas famílias de crianças e adolescentes com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e outras neurodivergências, no entanto, ele tem sido marcado por angústia, incerteza e luta. Nos grupos de mães, os relatos mostram que, apesar do discurso oficial de inclusão, a realidade ainda está longe do ideal.
“Para o meu filho, Miguel, 6 anos e TEA, as aulas não começaram. A escola em que ele foi locado é muito longe, impossível eu conseguir chegar com ele a pé. Pedi o remanejamento na Regional de Ensino do Gama, e eles não fazem. A opção que me deram foi manter ele em casa até sair o remanejamento.”
Enquanto isso, o direito à educação fica suspenso.
Outra mãe relata dificuldades na troca de turno, mesmo com respaldo médico: “Mostrei os relatórios do psiquiatra e do médico declarando a necessidade do meu filho estudar de manhã e, se possível, ficar na mesma turma do amigo. Desde o dia 12 estão jogando um para o outro e não resolvem.” Ela já recorreu à Defensoria Pública. Ainda assim, ouviu da escola: “Mesmo com uma ação judicial, não teremos vaga para ele, pois as turmas do matutino estão cheias.”
A ausência de monitor também aparece entre as queixas: “São dois dias de aula sem monitor, dois autistas nível 2. Mesmo com laudo solicitando monitor individual.”
Outro ponto recorrente é a falta de preparo para aplicação da Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA): “Estamos começando com CAA com nosso filho, e essa é a dificuldade que vejo. Ainda não há conhecimento de como aplicar na sala de aula, de como os professores e toda a escola podem ser parceiros de comunicação.”
Há também mães que relatam desgaste emocional constante: “É todo ano a mesma coisa. A gente precisa explicar novamente o que já deveria ser compreendido, exigir o que já deveria estar garantido.”
Mas nem todos os relatos são negativos. Algumas famílias percebem mudanças: “Este ano senti diferença.” Algumas escolas têm buscado diálogo prévio com as famílias, têm organizado reuniões antes do início das aulas e têm demonstrado maior sensibilidade. Mesmo assim, os avanços ainda parecem depender mais da boa vontade individual de gestores e professores do que de uma estrutura consolidada.
Há também quem tenha tomado decisões difíceis após anos tentando manter o filho no ensino regular: “Tentei por anos que meu filho permanecesse no ensino regular. Hoje, com 13 anos, percebi que foi tempo perdido. O sistema regular não está preparado para autistas de suporte 2 e 3. Agora ele está na escola especial e espero que lá seja melhor para ele.”
Os relatos deixam claro um ponto fundamental: cada criança é única. Cada adolescente no espectro tem necessidades específicas. Não existe modelo pronto. O que existe é a obrigação de garantir estrutura, planejamento e respeito.
Falo também como jornalista e como mãe de um adolescente com TEA, nível 2 de suporte. Sei que a luta não começa na sala de aula, começa no acesso a ela. Quando uma criança precisa permanecer em casa aguardando remanejamento, quando um laudo médico é ignorado, quando um monitor não chega, isso escancara uma falha estrutural no sistema educacional.
As famílias não querem privilégios. Querem condições reais de desenvolvimento. Querem que seus filhos não sejam apenas tolerados, mas verdadeiramente incluídos. Porque matrícula não é inclusão. E acolhimento não pode ser apenas discurso. A pergunta que permanece é simples e necessária: estamos construindo inclusão de fato ou apenas repetindo uma palavra que ainda não se sustenta na prática?
Tags: inclusão escolar, TEA, autismo, neurodivergência, volta às aulas, educação pública, Distrito Federal, mães atípicas, monitor escolar, CAA


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