Quando a régua muda, quem perde é o jornalismo

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Há momentos em que o jornalismo precisa olhar para si mesmo. Não para escolher lado, mas para lembrar que a coerência também é uma forma de compromisso com a sociedade

Por Kelly Souza

Em 2018, durante uma entrevista no Jornal Nacional, Jair Bolsonaro foi questionado por Renata Vasconcellos sobre a diferença de remuneração entre homens e mulheres. Ao responder, Bolsonaro afirmou que a legislação já previa igualdade salarial e, no decorrer do embate, mencionou a possibilidade de Renata receber menos que William Bonner. A jornalista reagiu de forma firme: afirmou que seu salário era uma questão pessoal e declarou que jamais aceitaria receber menos que um homem que exercesse as mesmas funções.

Naquele momento, Renata não se calou. Interrompeu, rebateu e defendeu sua posição como mulher e profissional.

Oito anos depois, o cenário é outro, mas a personagem é a mesma.

Na sabatina realizada pela TV Globo nesta quinta-feira (27), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi questionado por Renata sobre dívida pública, ajuste fiscal e metas para a trajetória da dívida em relação ao PIB. Em vez de responder diretamente à formulação da pergunta, Lula afirmou: “Renata, eu pensei que uma jornalista da tua qualidade, da tua competência, pudesse começar essa pergunta falando diferente”. Em seguida, sugeriu como, na visão dele, a pergunta deveria ter sido formulada.

E é justamente aqui que surge o questionamento que não pode ser ignorado.

Por que a régua da reação parece tão diferente quando o entrevistado é outro?

Não estou defendendo que jornalistas sejam agressivos ou que interromper seja sinônimo de bom jornalismo. Pelo contrário. Jornalista precisa perguntar, ouvir, confrontar quando necessário e, principalmente, preservar sua independência diante de qualquer autoridade.

Mas isso precisa valer para todos.

Quando Bolsonaro questionou Renata em 2018, a resposta dela foi apresentada como um símbolo de firmeza feminina. E foi mesmo. Ela mostrou que uma mulher não precisa aceitar que um homem diga o que ela deve pensar, receber ou responder.

Então, quando um presidente diz a uma jornalista experiente como ela deveria começar uma pergunta, também precisamos ter a mesma sensibilidade para perceber o problema.

Não se trata de defender Bolsonaro. Não se trata de atacar Lula. E muito menos de transformar uma jornalista em instrumento de disputa política.

Trata-se de defender o direito de uma mulher jornalista fazer a pergunta que considera necessária sem precisar receber uma aula do entrevistado sobre como deveria perguntar.

É possível discordar da pergunta. É possível contestar os dados. É possível apresentar outra interpretação. O entrevistado tem esse direito.

Mas a jornalista também tem o direito de conduzir a entrevista.

E aqui está a questão que, para mim, ultrapassa a disputa entre esquerda e direita: se combatemos o machismo quando ele aparece de um lado, precisamos combatê-lo também quando aparece do outro.

Não podemos defender mulheres apenas quando elas dizem aquilo que queremos ouvir.

Sou mulher. Sou jornalista. E justamente por isso não quero uma imprensa que seja firme apenas com quem pensa diferente de determinado grupo político.

Quero uma imprensa que faça perguntas difíceis para todos.

Quero jornalistas que possam interromper quando necessário, insistir quando uma resposta não foi dada e confrontar qualquer autoridade, seja ela de esquerda, direita ou centro.

Porque liberdade de imprensa não pode funcionar com dois pesos e duas medidas.

E a defesa das mulheres também não.

Se uma mulher precisa ser protegida quando um homem tenta diminuir sua voz, essa proteção não pode depender da ideologia do homem que está diante dela.

Coerência não tem partido. Jornalismo também não deveria ter.

Quando a régua muda conforme o entrevistado, quem perde não é Bolsonaro. Não é Lula. Não é Renata.

Quem perde é o próprio jornalismo.

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